Para ensinar? Para divertir? Para transmitir valores? Ou simplesmente para abrir uma janela para mundos que a criança ainda não conhece?
A pergunta parece simples, mas acompanha a própria história da literatura infantil.
Walter Benjamin, em As crianças, o brinquedo, a educação, observa que, em seus primeiros tempos, o livro destinado às crianças esteve muito ligado à educação moral. Nos primeiros decênios do Iluminismo, o livro infantil assumiu muitas vezes uma função “edificante”: ensinar à criança como deveria pensar e se comportar. Era, de certa maneira, uma nova versão do antigo catecismo, agora atravessada pelos valores da razão e do Iluminismo.
Mas talvez a literatura possa oferecer à criança algo maior do que uma lição, do que simplesmente reproduzir e referendar as ideias dos adultos.
Uma boa história não precisa dizer o que devemos pensar.
Ela pode nos fazer imaginar, perguntar, estranhar, rir, sentir, descobrir, desorganizar, criticar. A criança entra na história e, brincando com suas imagens e palavras, constrói suas próprias relações com o mundo.
É aí que literatura e brincadeira se encontram. É aí que entra a poesia.
Brincar também é uma forma de conhecer. Ao brincar, a criança transforma aquilo que recebe: uma caixa vira uma casa, um pedaço de madeira vira um barco, uma história pode virar mil outras histórias. Até mesmo o objeto livro pode virar outra coisa: pode ser rabiscado, amassado, sujar-se, transformar-se nas mãos da criança.
O livro deixa, então, de ser apenas um objeto a ser preservado e passa a fazer parte da experiência da brincadeira, da descoberta e da criação.
Por isso, um bom livro infantil não precisa entregar uma moral no final. Ele pode deixar uma pergunta, uma imagem, uma sensação — alguma coisa que continue trabalhando na imaginação muito depois que o livro foi fechado.
Ler para uma criança é também oferecer a ela a possibilidade de imaginar o que ainda não existe.
E talvez essa seja uma das maiores forças da literatura: não ensinar à criança como o mundo deve ser, mas ajudá-la a imaginar que o mundo pode ser diferente.